As empresas do Ibovespa ordenadas pela Fórmula Mágica de Joel Greenblatt: negócios que rendem muito sobre o capital e que estão baratos. E a carteira teórica de hoje.
As primeiras colocadas, com o mesmo peso cada uma, como manda o livro. É um exercício com a regra pura, não uma recomendação de compra.
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Ranking completo
Todas as empresas do Ibovespa que entram na conta, na versão escolhida acima. Clique no nome de uma coluna para ordenar por ela. As da carteira teórica estão destacadas.
Quem fica de fora
Bancos, seguradoras e outras financeiras, e as empresas de energia, saneamento e gás ficam fora da fórmula, como no livro: o balanço delas não tem "capital de giro" e "imobilizado" no mesmo sentido das outras empresas, então o retorno sobre o capital e o valor da firma não são comparáveis.
O que dizem os estudos
Resumo da pesquisa sobre a fórmula: o resultado do livro, o que aconteceu depois e as melhorias propostas.
O livro (EUA, 1988–2004)
Joel Greenblatt, The Little Book That Beats the Market (2005). Carteiras de 30 ações entre as 3.500 maiores dos EUA renderam cerca de 30% ao ano, contra 12% do S&P 500, antes de custos e impostos. Entre as 1.000 maiores, cerca de 23%.
O próprio livro avisa: a fórmula passa anos perdendo do mercado, e é por isso que continua funcionando — pouca gente aguenta.
Depois de publicada
Os testes independentes acham ganhos bem menores: cerca de 11% ao ano contra 9% do S&P 500 de 2003 a 2015 (R. A. Martin, 2020), e quase empate depois de 2010.
Boa parte do ganho é exposição a fatores conhecidos — empresas baratas, pequenas e rentáveis (Persson e Selander, 2009; Schwartz e Hanauer, 2024).
Quedas iguais ou maiores que as do mercado (−57% em 2007–2009 nos EUA).
No Brasil
Os testes acadêmicos costumam achar retorno acima do Ibovespa (ex.: 2006–2020, a pior carteira com 15% ao ano contra 8% do índice).
Mas a evidência é fraca: com correção de vieses, só a carteira das 5 primeiras teve ganho estatisticamente significativo, e a 90% (Juliao de Paula, 2016, Univ. de Gotemburgo).
O universo é pequeno, sem custos de negociação na maior parte dos testes.
Críticas principais
O "barato" faz quase todo o trabalho: só o EBIT/EV rendeu mais que a fórmula com os dois critérios (Gray e Carlisle, Quantitative Value, 2012).
Armadilha de valor: olha só os últimos 12 meses — empresa cíclica no pico do lucro parece barata.
Concentração: sem limite por setor, a lista se enche do setor barato do momento.
Melhorias com evidência
Só preço (EBIT/EV): a versão "Acquirer's Multiple" de Carlisle; maior retorno no topo em Schwartz e Hanauer (2024).
Filtro de qualidade: F-score de Piotroski (2000) alto, para fugir de empresas frágeis; usado na Quantitative Value.
Média de vários anos do lucro, fluxo de caixa no lugar do EBIT e momentum também aparecem nos estudos, com evidência mista.
O que o próprio Greenblatt mudou
Nos fundos da Gotham e no livro The Big Secret (2011), ele passou a dar mais peso às empresas mais baratas (em vez do mesmo peso), a usar lucro "normalizado" e a comparar o preço com o histórico da própria empresa e do setor. A ideia de comprar bons negócios baratos ficou a mesma.
Fontes: Greenblatt (2005, 2010, 2011); R. A. Martin (2020); Persson e Selander (2009, Stockholm School of Economics); Gray e Carlisle (2012); Piotroski (2000); Schwartz e Hanauer (2024, SSRN 5043197); Juliao de Paula (2016, Univ. de Gotemburgo). Lista completa no quadro abaixo.
Como a conta é feitaFórmulas, premissas e fontes
Retorno sobre o capital (ROC) = EBIT ÷ (capital de giro líquido + imobilizado)
Earnings yield (EY) = EBIT ÷ valor da firma (EV)
Posição na fórmula = posição no ROC + posição no EY (a menor soma vence)
EBIT = lucro antes do resultado financeiro e dos impostos, 12 meses,
sem a equivalência patrimonial (lucro de coligadas)
capital de giro = (ativo circulante − caixa − aplicações financeiras)
− (passivo circulante − empréstimos e financiamentos de curto prazo)
imobilizado = imobilizado líquido de depreciação (sem ágio e intangível)
EV = valor de mercado + empréstimos e financiamentos (curto e longo prazo)
+ participação dos não controladores − caixa − aplicações financeiras
A ideia: o ROC mede se o negócio é bom — quanto lucro operacional ele gera para cada real de capital que precisa para funcionar (estoques, contas a receber, fábricas, lojas). O EY mede se está barato — quanto lucro operacional a empresa inteira (ações + dívida, descontado o caixa) rende para cada real que custaria comprá-la. A fórmula ordena as empresas pelos dois e soma as posições: dá o mesmo peso a "boa" e a "barata".
EBIT e não lucro líquido: o lucro operacional não depende de quanto a empresa deve nem de quanto paga de imposto (inclusive do JCP), então compara empresas com estruturas diferentes. A equivalência patrimonial sai porque é o lucro de outras empresas das quais ela é sócia; o investimento correspondente também não está no capital.
Capital tangível: o caixa sai do capital de giro (não é preciso para operar) e a dívida de curto prazo sai do passivo (é financiamento). Ágio e intangíveis ficam de fora, como no livro. Desde 2019 o imobilizado inclui o "direito de uso" de imóveis alugados (IFRS 16), e a dívida inclui o arrendamento quando a empresa o informa junto com os empréstimos. Quando o capital é zero ou negativo (fornecedores financiam a operação), o ROC é "muito alto" e a empresa vai para o topo desse critério.
Imóveis: empresas de shoppings e galpões (subsetor "Exploração de Imóveis" da B3, que fica no setor Financeiro) entram na conta, com as propriedades para investimento somadas ao imobilizado.
EV com todo o caixa: o livro desconta só o caixa "em excesso", mas o balanço não diz quanto é excesso; aqui sai o caixa e as aplicações de curto prazo inteiros (como faz a AAII). Valor de mercado = todas as classes de ação × preço de cada uma (o mesmo do P/L da Bolsa).
Balanço: o consolidado mais recente que já foi entregue à CVM no último pregão (a data aparece em cada empresa). 12 meses = ano fechado, ou ano anterior + acumulado do ano − acumulado do ano anterior. Balanço com mais de 15 meses não vale.
EBIT negativo: a empresa fica no fim dos dois critérios. Empresa sem dado para a conta aparece em "Quem fica de fora".
Versões:Original = ROC + EY, como no livro. Só preço = só o EY (EBIT/EV), a variante de Gray e Carlisle, que nos testes deles rendeu mais que a original. Com filtro de qualidade = a original, só entre as empresas com F-score de Piotroski de 6 ou mais.
F-score de Piotroski (0 a 9): 1 ponto para cada sinal de saúde financeira, comparando o último balanço com o de 12 meses antes — lucro positivo; caixa das operações positivo; retorno sobre o ativo subiu; caixa das operações maior que o lucro; dívida de longo prazo ÷ ativo caiu (ou ficou igual); liquidez corrente subiu; não emitiu ações (até 2% a mais); margem bruta subiu; receita ÷ ativo subiu. Critério sem dado não conta ponto (a tabela mostra quantos tinham dado).
Volume: média diária negociada (R$) de todas as ações da empresa, nos 3 últimos meses e no mês corrente (B3, lote padrão, mercado à vista).
Carteira teórica: as primeiras do ranking, com o mesmo peso (o livro fala em 20 a 30 ações, compradas aos poucos ao longo do ano e mantidas por 1 ano). Não considera custos, impostos nem liquidez da pessoa. Empresas com duas classes de ação entram uma vez, pela ação mais negociada.
Universo: as empresas da carteira teórica do Ibovespa do dia, na B3. Setor: classificação setorial da B3.
Limitações: é uma foto de hoje, sem teste do passado (backtest) com estes dados. O lucro é contábil e pode ter eventos únicos (venda de ativo, baixa contábil) que deixam a empresa "barata" sem ser. Bancos e elétricas pesam muito no Ibovespa e ficam fora. A quantidade de ações vem da CVM, com as correções do P/L da Bolsa.
Estudos citados: Greenblatt, The Little Book That Beats the Market (2005) e …Still Beats the Market (2010), The Big Secret for the Small Investor (2011); R. A. Martin, "A critical look at Greenblatt's Magic Formula" (2020); Persson e Selander, "Back testing The Magic Formula in the Nordic region" (2009); Gray e Carlisle, Quantitative Value (2012); Carlisle, The Acquirer's Multiple (2017); Piotroski, "Value Investing: The Use of Historical Financial Statement Information" (2000); Schwartz e Hanauer, "Formula Investing" (2024); Juliao de Paula, "Backtesting the Magic Formula in the Brazilian Stock Market" (2016); AAII, "Greenblatt's Magic Formula" (2011).
Fontes dos dados: CVM (DFP, ITR, Formulário de Referência, cadastro) e B3 (Cotações Históricas, carteira teórica do Ibovespa, classificação setorial), todos públicos. Cálculo próprio.
Veja também: P/L da Bolsa — quanto o Ibovespa vale hoje em anos de lucro.